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Eu tinha acabado de passar para a primeira série (sim, a primeira série do ensino fundamental) e estava me achando o máximo por isso. Eu, Allan, agora estudando de verdade! Eu lembro que, apesar da idade, eu pensava que aquilo era um marco, uma passagem tão importante quanto pisar na lua, de neném para o futuro da nação (em algum momento de minha infância eu ouvi uma música que falava isso: "e as crianças são o futuro da nação" e aquilo ficou na cabeça), antes eu era um filhinho de mamãe, agora eu era um estudante! Um potencial, logo estaria trabalhando e salvando o mundo!
Tudo muito bom, tudo muito divertido, e naquela idade eu tinha uma tremenda capacidade de obedecer sem reclamar ou pensar nas conseqüências. Mesmo porque quando meu pai falava alguma coisa era sempre uma verdade absoluta para mim (na verdade é meio assim até hoje....meio). E essa foi a raiz da história.
Quando eu ia para a escola meus pais sempre me falavam "Não desobedece as tias hein!", e eu não desobedecia. Ficava quieto no meu canto, as vezes cumprimentava elas (as vezes, porque naquela idade eu era um poço de timidez com tudo e todos) e o que elas pediam ou recomendavam eu seguia a risca.
Até que um belo dia, eu vi um grupo de garotos jogando futebol de latinha no pátio. Tinham comprado uma coca-cola e depois de secá-la estavam se divertindo, como todo mundo já deve ter feito alguma vez na vida, e eu pensei com meus botões "Nossa, parece legal". E nisso, a tia que estava perto de mim falou de uma maneira muito sutil "EEEI, NÃO PODE JOGAR LATINHA, NÃO PODE, VAMO PÁRA SEUS MOLEQUE!",e rapidamente meu cérebro assimilou aquela informação "jogar futebol de latinha = ERRADO".
Com a lição aprendida, voltei no dia seguinte normalmente. Só que ai aconteceu o inesperado: na hora da saída, eu estava me encaminhando para o portão onde meu pai buscava eu e meu irmão e vi três garotos, provavelmente da oitava série, jogando no meio do pátio. Olhei em volta, nenhuma tia por perto, também não via meu irmão e... opa, a latinha veio parar perto de mim.
Nisso eu tive um pensamento rápido, e meus instintos de tigre e reflexos de ninja me lançaram sobre a latinha. Peguei ela com velocidade e joguei no lixo. Pára tudo!
Pausa para análise da situação. Coloque-se no lugar dos garotos da oitava: "Pô, estamos jogando 'na boa' e esse moleque joga a latinha fora, quem ele pensa que é??".
Eles se entreolham e começam a me enquadrar entre ameaças...são três, para efeito puramente ilustrativo vamos chamá-los de Arnold (o Schwarzenegger), Jean (o Claude Van Dame) e Jackie (o Chan). Eles estão começando a se aproximar de mim, e eu começo a perceber que a idéia não foi boa....para minha tristeza percebo que meus reflexos de ninja desapareceram no ar, como bons ninjas, e meus instintos de tigre parecem usar bengala.
Quando tudo parecia perdido.... vejo alguém correndo. De maneira desesperada, um vulto heróico, com olhar determinado e, como diria meu bom amigo Renan, com "sangue nozóio!". Era André, meu irmão! Ele surgiu de algum lugar, e me vendo em perigo veio correndo.
Colocou-se entre eu e meus possíveis agressores, e num tom de voz imperativo disse "Allan, vai buscar o pai!". Sabe aquela fala dos filmes "Vai na frente, eu te alcanço, depois que terminar com eles"? Foi mais ou menos assim a cena.
Seria heróico, poético e digno de cinema se não fosse trágico. O André é só 3 anos mais velho que eu. Ou seja, eu batia no ombro dele em altura...e ele passava um pouco da cintura de nossos adversários. E eles eram três. E o André nunca foi muito de briga, e mesmo se fosse, poderia encarnar o Bruce Lee ali que não ia ter jeito.
Nisso meus instintos de tigre voltaram por um momento e eu sai correndo "para fazer o que meu irmão mandou". Mentira, eu fui me esconder pertinho dali e ver o que ia acontecer..tão perto que o André conseguia me ver e ficava falando "vai buscar o pai, vai buscar o pai!". (nossa, escrevendo agora eu me sinto o canalha dos canalhas...) Sinceramente não lembro o que eu pensei, talvez eu fosse inocente demais para perceber que aqueles caras iam moer meu irmão, ou talvez eu fiquei com tanto medo que queria ver o que ia acontecer...ou talvez foi canalhice mesmo, não sei...
Mas novamente a sorte da família Saldanha Vital falou mais alto...entre as ameaças e rodeios o mais magro, o Jackie falou "Ih, esse ai nem vale a pena...vamo embora que a gente ganha mais" e deixaram meu irmão em paz.
Voltamos para casa com mais uma história para contar, e, devo admitir, uns pontos a mais de admiração pelo irmão mais velho. Olhando para trás agora, eu lembro que o André deve ter "arrumado" umas três confusões por minha causa, novamente lembrando que ele nunca foi de brigar mesmo.
Relações entre irmãos são coisas legais... espero que meu irmão mais novo me admire tanto quanto eu admiro o André.(perdão aos leitores por essa frase emo...mas é verdade caramba!)
grande abraço e até o próximo passo
3 comentários:
Quando eu crescer quero ser igualzinho a voce.Me orgulho muito de você.Às vezes fico muito preocupado pensando de mim para mim:serà que este esperma tão esperto assim saiu de mim mesmo?Te amo muito filhão.
Pai pai.
É bem dificil analisar a situação após tanto tempo! Naquela época, se soubesse do acontecido, provavelmente você levaria uma grande bronca por se meter com pessoas bem mais velhas, e ainda dar uma de valente e mandão! Sinceramente, hem Allan!
Hoje, rimos da situação e, verificamos que pequenos detalhes e pequenas coisas nos fazem pensar como somos felizes! São esses pequenos detalhes é que fazem a diferença! E vocês (filhos queridos) fazem realmente a diferença em minha vida.
Adorei o post, Allan.
Grande beijo,
Adivinha quem é?!
Então era VC o garoto xarope q sempre acaba com diversão do povo q jogava Futebol de Latinha Hein!
Suspeitei desde o Princípio!
huahAUAHUAHAUHAU
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